Pandemia cria novos hábitos e amplia leque do setor de seguros

Em meio às circunstâncias adversas envolvendo a pandemia e a conjuntura econômica nacional e internacional, o setor de seguros tem demonstrado resiliência e força na comparação com outros segmentos. No primeiro trimestre deste ano, as receitas de seguro, as contribuições de previdência e o faturamento dos títulos de capitalização totalizaram R$ 82,2 bilhões, o que representa um aumento de 15,4% em relação ao mesmo período do ano anterior, conforme dados da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg). No acumulado de 2021, conforme a entidade, o setor alcançou um crescimento real de 3,3%.

Números recentes da Tokio Marine, quinta maior seguradora do País segundo ranking geral da Superintendência de Seguros Privados (Susep), sinalizam que o setor deve seguir em alta, com um desempenho de destaque para a Região Sul, apesar dos efeitos ainda sentidos em razão das crises sanitária e econômica.

Nos últimos 12 meses, a empresa atingiu a marca histórica de R$ 1 bilhão em volume de prêmios emitidos no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Nesta entrevista, o diretor comercial varejo Sul da Tokio Marine, Rogério Spezia, analisa o cenário atual do mercado segurador em nível regional e nacional e antecipa os desafios que devem ser enfrentados pela companhia no futuro.

Empresas & Negócios – Ao que se deve essa marca histórica registrada pela companhia na Região Sul nos últimos 12 meses?

Rogério Spezia – Esse resultado é fruto de um trabalho a muitas mãos e de equipes muito competentes que temos nos três estados, formadas por mais de 60 colaboradores. Nos últimos anos, temos trabalhado incansavelmente e tivemos a satisfação de atingir a marca histórica de R$ 1 bilhão nos últimos 12 meses. Quando a maior parte dessa nova equipe assumiu a diretoria Sul, há cerca de 12 anos, fazíamos aproximadamente R$ 100 milhões de produção ao ano. Agora, com muito trabalho, intensidade e novos produtos, temos feito em média R$ 100 milhões por mês.

E&N – Quais são os segmentos que mais têm se destacado no Sul?

Spezia – Vivemos um momento muito atípico no mercado de seguros. Apesar de toda a crise mundial econômica e sanitária, o mercado de seguros não parou de crescer. Percebemos que as pessoas, especialmente durante a pandemia, acabaram mudando alguns hábitos, criaram novas preocupações e prioridades, pensando em sua saúde, residência, trabalho e na própria vida, o que fez aumentar a procura por vários produtos. A diretoria Sul teve um crescimento bastante exponencial nos últimos 12 meses nas carteiras de transportes, com crescimento de 49%; residencial, que cresceu 44% e vida individual, com alta de 36%. Foram as três carteiras que mais cresceram.

E&N – Hoje, a regional Sul responde por 19% dos negócios da diretoria nacional varejo da Tokio Marine. Quais são os objetivos e metas para a região?

Spezia – A diretoria sul tem a pretensão de crescer acima de 25% no ano de 2022. No primeiro semestre, alcançamos números bastante expressivos. Mas sabemos que no segundo semestre o cenário costuma ser mais apertado. Mesmo assim, estamos caminhando para entregar números nessa ordem e o Rio Grande do Sul será muito importante para atingirmos essa meta em razão do seu tamanho e das oportunidades que acontecem no Estado. No segundo semestre, queremos explorar as carteiras de transporte, vida individual, além de novos produtos. Em um mundo cada vez mais digital, o seguro para riscos cibernéticos tem crescido e estamos apostando também nessa carteira.

E&N – O que podemos destacar de tendência no mercado de seguros no cenário nacional?

Spezia – Há alguns produtos que continuarão crescendo, como o de automóvel. Há outros, que após a pandemia, passaram a ser mais buscados, como residência, saúde e vida. E tem alguns novos começando a se destacar, como o cyber. O rural tem sido muito procurado no Rio Grande do Sul, que é um dos maiores fornecedores de produtos agrícolas. Não só a Tokio Marine, mas o mercado segurador está olhando para o Rio Grande do Sul a nível de produto de plantio e de agro equipamentos, que deverão ser fortes tendências no segundo semestre.

E&N – Como a digitalização e o surgimento das insurtechs têm impactado o mercado e a Tokio Marine?

Spezia – Percebemos, hoje, que o nosso consumidor é muito aderente a novas experiências e está dando maior prioridade para a sua vida pessoal. Há também um movimento de procurar por proteção ainda pequeno, mas que começa a ganhar força. As pessoas não estão mais se preocupando apenas em buscar contratação de risco. Estão procurando também por proteção. Sobre este mundo digital, há duas formas de enxergar as coisas: o copo meio vazio ou o meio cheio. Como sou sempre otimista, vejo como uma grande oportunidade. As novidades, que envolvem as insurtechs e o sandbox regulatório, são agentes que trarão novidades para o setor. Acredito que o que vier e for verdadeiramente bom as grandes seguradoras irão copiar e podem até melhorar. Não vejo como uma ameaça, mas como fatores que servirão de estímulo para sermos mais competitivos e para realizarmos uma entrega cada vez melhor.

E&N – Como a atual conjuntura econômica do País tem impactado o setor de seguros e a Tokio Marine?

Spezia – O mercado segurador como um todo atravessa um ótimo momento relacionado ao aumento de produção. Por outro lado, está atravessando um período difícil a nível de resultados. Acabamos de sair de uma pandemia em que as seguradoras indenizaram aproximadamente R$ 6 bilhões em seguro de vida durante a Covid-19. Isso é digno de registro. Além disso, quando a pandemia começou, praticamente todo o mercado segurador deu desconto no custo do seguro e aumentou o parcelamento sem cobrar juros com o objetivo de manter os segurados. Com isso, nosso prêmio médio caiu em torno de 15%. O tempo foi passando e a FIP (Formulário de Informações Periódicas) disparou. Fomos obrigados a fazer alguns ajustes para tentar equilibrar um pouco essa matemática.

Também tivemos uma fase difícil no seguro rural, principalmente no Rio Grande do Sul e no Paraná. Portanto, este é um ano atípico para o mercado segurador e para as companhias do setor. Em suma, ao questionar se a crise econômica tem prejudicado os nossos negócios, a resposta é tanto sim quanto não, pois alguns ramos passaram a crescer após a pandemia e, em outros, o impacto negativo foi maior.

E&N – O Brasil é um dos países com maior potencial para crescimento do setor segurador. O que falta para que esse potencial do país se concretize?

Spezia – Se compararmos o Brasil com o exterior, somos ainda novatos neste mercado. Os países lá de fora são mais maduros e têm uma economia mais estável, portanto, com o mercado segurador mais organizado. Mas estamos caminhando também para essa direção. Hoje, representamos apenas cerca de 4% do PIB do País, enquanto alguns países chegam a 8% e até 12% do PIB. Outro ponto é a necessidade de um aculturamento maior da população brasileira. É preciso que saibam, por exemplo, que dois terços do que as seguradoras recebem retornam para a população e de que é importante ter um seguro bem feito para poder estar tranquilo. Portanto, aculturamento é a palavra de ordem. Tenho certeza de que em alguns poucos anos vamos ver esses percentuais bem diferentes.