sábado, novembro 27, 2021
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Velhos ‘micos’ atraem novos sócios na bolsa | Finanças

Com as atividades paralisadas há duas décadas, a sede da Nordon Indústrias Metalúrgicas, em Santo André, Grande São Paulo, seria uma bom cenário para um filme de suspense. No prédio de 58 milénio metros quadrados, a poeira tomou conta dos vidros e a pintura amarela se desgastou, coberta por sujeira e pichações. De uma das janelas da fábrica, onde antes eram produzidas peças uma vez que tanques para cervejarias, um boneco faz as vezes de vigia, numa versão econômica – e sinistra – do segurança que tenta alongar as presenças indesejadas.

A companhia, fundada em 1956, decidiu interromper as atividades por falta de novos contratos, segundo as informações que constam das demonstrações financeiras mais recentes. Desde portanto, apresenta contínuos prejuízos e seu passivo já é muitas vezes maior que seus ativos. No entanto, talvez mais bizarro que o boneco-vigia seja o vestimenta de que, mesmo paralisada, a Nordon continue a ser negociada na bolsa de valores.

Não somente negociada, mas com um retorno espetacular. As murado de 70 milénio ações ordinárias (NORD3) em circulação no mercado (1% do capital totalidade) acumulam subida de 378% nos últimos 12 meses até o dia 3. Neste ano, o progressão é de 230,68%. O valor de mercado da metalúrgica passou de R$ 32 milhões no início de 2020 para R$ 137,7 milhões.

Em tempos de “ações meme” uma vez que a GameStop, varejista de jogos que causou furor no mercado americano impulsionada por investidores de varejo, pode parecer à primeira vista que seria um fenômeno similar, o que não é o caso. De qualquer forma, o vestimenta é que o mercado brasiliano tem seu estoque de empresas em dificuldades – ou mesmo paralisadas – que atrai especuladores e incautos em procura de ganhos fáceis e rápidos. Por fim, quem em sã consciência seria sócio de uma empresa sem porvir?

Apesar das diferenças, nos dois casos há sérias dúvidas sobre o “fundamento” da empresa, ou seja, sobre as perspectivas econômicas. A GameStop ainda depende de um padrão ultrapassado de venda de videogames, mas chegou a subir mais de 2.700% somente em janeiro, depois que investidores reunidos em um fórum da internet saíram em resguardo do papel contra fundos que apostavam na queda das ações.

Casos uma vez que o da Nordon são antigos e menos glamourosos. São ações pouco líquidas, chamadas de “micos”, cuja oscilação está mais relacionada à pura especulação. O que dá uma novidade proporção a esse fenômeno é o aumento de pessoas físicas na bolsa e a velocidade com que informações – muitas delas, falsas – são compartilhadas em redes sociais e sites.

Levantamento do Valor Data mostra que das 20 maiores altas da B3 em 12 meses, 12 são de ações de empresas com déficit patrimonial (passivo maior que ativo). Além da Nordon, há outros exemplos uma vez que a Sansuy Indústria de Plásticos, que se valorizou quase 1.278%. A trabalhador de materiais para instalações elétricas Wetzel, em recuperação judicial, também aparece na lista, com subida de 507%.

As perspectivas de melhora dessas companhias, no universal, são pequenas. No caso da Nordon, especificamente, os auditores dizem no relatório do terceiro trimestre de 2020 que a perpetuidade está vinculada à decisão dos acionistas de fazer aportes de capital e negociar passivos tributários e trabalhistas.

“A companhia tinha murado de 3 milénio funcionários quando fechou”, diz Aldenon Lopes, responsável por dirigir os imóveis da metalúrgica em Santo André, ao Valor. “O que a empresa faz atualmente é negociar as dívidas e alugar segmento dos imóveis.”

Desde 2019, a subida de papéis sem uma razão aparente passou a ser mais recorrente. Em universal, quando a B3 e a CVM notam uma “oscilação atípica”, tanto em termos de preço quanto de volume, uma missiva é enviada à dimensão de relações com investidores da companhia com um pedido de explicações.

A identificação é feita pela dimensão de negociações da B3, que avalia as variações tendo uma vez que base o histórico do ativo. De 2018 a 2019, os questionamentos desse tipo aumentaram 66%, para 158 ocorrências. De 2019 a 2020, o número quase dobrou, chegando a 309. De janeiro até o dia 26 de fevereiro de 2021, foram 91 ocorrências.

O aumento de pessoa física na bolsa pode ter contribuído para a popularização desses papéis. De 2018 a 2020, o número de CPFs cadastrados na B3 passou de 813,2 milénio para 3,22 milhões. A valorização acelerada ou o preço unitário sedutor desses papéis costumam enganar os iniciantes.

“Ainda há muito aquela teoria de que existe uma projéctil de prata para erigir a sua riqueza em investimentos. Não existe. Investir é uma construção de longo prazo, o sucesso vem aos poucos”, diz Luiz Felippo, sócio da vivenda de análises Nord. “Com esse movimento otimista na bolsa, qualquer informação ou previsão que pipoca em qualquer lugar da internet incentiva investidores a comprar papéis sem julgar corretamente se há fundamentos por trás daquela tese.”

Curiosamente, a Nord foi confundida com a metalúrgica por alguns investidores. Pelo Twitter, Ricardo Schweitzer, também sócio da vivenda de análises, recebeu em janeiro alguns questionamentos sobre o que estava acontecendo com os papéis da sua companhia. “Sou acionista da empresa de vocês (NORD3) e gostaria de saber, por obséquio, o que está acontecendo”, diz umas das mensagens.

Em um texto publicado no blog da Nord, Schweitzer esclareceu que “a Nordon não tem rigorosamente zero a ver com a Nord Research” e lembrou de casos parecidos, uma vez que a valorização nos EUA dos papéis da Signal Advance, trabalhador de sensores para a indústria e a dimensão médica. A subida, de mais de 11.000%, ocorreu posteriormente a publicação de um tuíte de Elon Musk, que incentivava o uso de outra Signal, um aplicativo de mensagens.

Em fóruns, investidores se dividem entre os que apontam o papel uma vez que “oportunidade de proveito” e os que questionam o motivo da empresa ainda ser negociada. “Uma vez que uma empresa que não funciona desde 2001 ainda está na bolsa? A CVM é muito incompetente”, diz uma das mensagens publicadas no site Investing.com. “O ferro velho está pagando muito pelo quilo portanto. Só pode.”

Para Marcos Piellusch, professor de finanças da Instauração Instituto de Governo (FIA), casos uma vez que os da Nordon podem ser prejudiciais não somente para os investidores que perdem numerário com os papéis, mas para o envolvente de investimento uma vez que um todo. “Essa especulação é ruim para a própria imagem da bolsa, do qual propósito não é de ser um cassino, mas de promover a captação de recursos pelas companhias”, diz.

Para ele, uma opção seria produzir regras para que empresas em situações “extremas”, uma vez que as que não geram receita ou com patrimônio líquido negativo e sem perspectiva de melhora, não possam negociar seus papéis em bolsa. “As corretoras também poderiam deixar evidente em seus ambientes de negociação que determinada empresa está numa situação delicada”, afirma.

Em muitos casos, as empresas até gostariam de trespassar da bolsa, mas a operação de recompra de ações no mercado não cabe no caixa murcho. Eduardo Lucano da Ponte, presidente da Abrasca, diz que o processo de fechar o capital pode ser um pouco custoso – considerando a recompra e a contratação de serviços jurídicos. “Acredito que a saída dessas companhias, que são praticamente esqueletos do pretérito, deveria ser facilitada, com a flexibilização das obrigações”, diz.

A CVM diz que, conforme a Instrução 480, há duas hipóteses para cancelamento de ofício do registro de emissor: a extinção do emissor ou a suspensão do registro por período superior a 12 meses. Tal suspensão ocorre quando as empresas ficam mais de um ano em detido com a obrigação de prestar informações – o que não é o caso da Nordon.

Também há a possibilidade do cancelamento voluntário, quando a própria empresa decide fechar o registro. A Nordon já estudou essa possibilidade, mas os planos foram adiados posteriormente a morte de um dos controladores no ano pretérito, segundo uma pessoa próxima. O tema voltou a ser discutido em janeiro. Procurada pelo Valor, a empresa disse somente que não há fatos que justifiquem a valorização de seus papéis e que a parcela do capital social no mercado é baixa, equivalente a menos de 1%.

A B3 também não comenta casos específicos. Em nota, diz que o diretor-presidente poderá cancelar o ofício de listagem em algumas hipóteses, uma vez que quando o emissor estiver em temporada de liquidação ou com a extinção formalizada, quando tiver a falência decretada, quando não tiver nenhum valor mobiliário permitido à negociação por período superior a dois anos ou quando ocorrer o cancelamento de registro junto à CVM.

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